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quarta-feira, setembro 29, 2004

" Só espero que no dia do Juízo não seja tarde demais..."

Me respondam sinceramente: o que leva uma pessoa a visitar o meu blog e incluir um comentário como este aí em cima? Quem quer que seja, continuará sendo bem-vinda aqui, mas percebe-se de longe que não sabe quanto tempo da minha vida eu passei em uma igreja, e consequentemente subestima minha experiência. Entre os samurais, subestimar o outro pode ser o último erro que você cometerá em vida.

Já notaram quantas religiões cristãs e não-cristãs mantém controle sobre seus fiéis utilizando o desconhecido? Na antiguidade, muitos alquimistas aproveitavam-se do fato de saberem algo que os outros não sabiam, para se passarem por magos e dominar comunidades. É a clássica história do "em terra de cego, quem tem um olho é rei". E até hoje, muitas pessoas são ameaçadas com a perspectiva de sofrimento eterno na vida após a morte.

Vida após a morte... quem pode afirmar que ela existe? Infelizmente, não é possível provar sua existência. Acreditar nela (e eu acredito) é uma questão de fé, ou seja, acreditar por vontade própria, mesmo sem evidências concretas. Muitos tentam nos doutrinar em viver em prol do incerto (a vida após a morte), e assim deixamos de viver o que efetivamente temos: o hoje, o agora, este exato momento.

Permitir-se tentar, aceitar-se ao errar e assim aprender. Este é o único caminho para o crescimento interior. Ninguém pode dizer que cresceu e amadureceu enterrando seu talento na areia, com medo das perdas e ganhos do mercado, à espera da volta do senhorio para o acerto de contas.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Atendendo a pedidos

Olhando hoje para trás, vejo que foi uma época confusa aquela em que participei de grupos de jovens na igreja. Se me perguntassem hoje se valeu a pena, sinceramente eu não saberia responder.

Eu me lembro que fizemos muitas coisas boas. Quantos retiros de jovens reconciliaram filhos e pais, e deram uma nova esperança para pessoas envolvidas com drogas, álcool e outros problemas. Quantas foram as vezes que reunimos adolescentes ao redor de atividades divertidas e sadias. Trocamos experiências e emoções, rimos muito e choramos mais ainda. Até tocar blues em plena missa a gente já fez.

Por outro lado, toda essa devoção nos custou muito de uma adolescência normal. Houve muitas vezes em que fizemos as famigeradas tardes de louvor, nos enfurnando dentro da igreja enquanto Deus estava lá, onipresente, no sol forte do lado de fora, no céu azul sem nuvens, na praia que ficou esperando pela gente. Deixamos de ir em muitas baladas, porque nos fizeram acreditar que a vida "mundana" nos faria infeliz. Típico de quem não confia no próprio juízo, pensar desta forma e incutir este pensamento em outros. Com isso nós não bebemos, não arriscamos, não experimentamos o prazer máximo entre duas pessoas que se amam... não vivemos, enfim.

Mas o pior de tudo foi a insistência em acreditar no "pedi, e vos será dado". Quanto joelhos se ralaram, em vão, à espera de alguma dádiva. No caso de adolescentes, a dádiva era quase sempre a mesma. Talvez para outros tenha funcionado, mas para mim, não adiantou nada. O que me fez acreditar que, ou Deus era um cara que não nos dava a mínima, ou o caminho não era por aí. Se eu quisesse conquistar os meus objetivos, seria necessário menos "fé" e mais atitude.

Eu deixei os domínios da igreja, mas muitos ainda ficaram por lá. Talvez eles tenham mesmo sido destinados a serem adoradores, conforme dizia sua vocação de louvar a todo instante. Mas eu fui escolhido para ser um guerreiro, e buscar com as minhas próprias forças os meus objetivos. Por isso me identifiquei e assumi para a minha vida o bushido, a filosofia de vida deixada pelos samurais. Hoje, a única coisa que espero de Deus - se é que ele ainda está lá - é que ele me dê mais um dia de vida. A cada amanhecer, apenas mais um dia. É tudo o que eu preciso para dar o meu máximo, até o fim das minhas forças, pelo que quero e acredito.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Boas novas, ainda que tardias: domingo passado foi o último dia de gravações da demo do Madeleine. Isso significa que falta apenas a mixagem, e aí nosso CD sairá fumegante do forno, pronto para colocar seu potencial à prova.

É como se tivéssemos sido condenados a uma pena de 35 anos de reclusão numa baia de escritório, e agora estamos cavando com uma colher o nosso túnel de fuga. Cada passo dado na concretização deste projeto é mais uma escavadinha, daquelas que só podem ser feitas na calada da noite, quando os guardas da prisão estão dormindo. Ou seria na calada dos fins-de-semana, quando o trabalho dá uma trégua?

quinta-feira, setembro 16, 2004

Não é fácil manter viva a tradição dos samurais no século XXI. Às vésperas do exame de faixa, que acontece neste domingo, choveu trabalho o suficiente para nos fazer virar madrugadas e perder boas horas do fim-de-semana aqui no banco. Resultado: fui obrigado a abrir mão dos treinos mais importantes. Aqueles bem próximos à data crucial, que dão um toque final indispensável na sua auto-confiança. Agora, exame para mim só em dezembro.

É fato que coisas boas têm acontecido. Ganhei uma equipe para coordenar, o que gera novas perspectivas profissionais. Mas ficando até tarde no trabalho quase todo dia, quem consegue treinar o suficiente para fazer bonito nas aulas, nos exames e, principalmente, nos campeonatos?

Invejo os meus senseis. Uma inveja positiva, de quem gostaria de poder treinar tanto quanto eles treinam. Viver o caminho do guerreiro com a mesma plenitude que eles vivem. Meu princípio marcial de dar o máximo de mim mesmo tem sido usado mais na vida profissional do que na academia.

Será que estou feliz no caminho que acabei trilhando? Uma pausa para repensar as escolhas que fiz, e torcer para que outros repensem as suas antes de fazê-las.

terça-feira, setembro 14, 2004

"Se você não gosta de absolutamente nada do que toca no rádio hoje em dia, você está ficando velho".

A frase aí em cima é de autoria minha. Me ocorreu enquanto eu pensava na rejeição que sinto (ou sentia) por 99,99% dos sons que estão na mídia atualmente. Me senti um velho reclamando de tudo, e não coincidentemente, me lembrei de como os nossos pais sempre reprovaram as músicas que ouvimos. Nossos avós também deviam detestar quando nossos pais ouviam Beatles, Johnny Rivers ou Bill Haley e seus Cometas. E os atuais fãs dos Charlie Brown Jr´s e Detonautas da vida, será que não vão igualmente repelir os sons das gerações futuras?

Tudo bem, concordo que os atuais "ídolos" do Rock mundial jamais repetirão as proezas dos precursores do seu estilo. Mas grande parte desse repúdio que sentimos é crônico, faz parte de um círculo vicioso. Avós ordenarão uma abaixada de volume aos pais, que repassarão a ordem aos seus filhos. Nem sempre a questão é qualidade; muitas vezes, não passa de um conflito de gerações.

Foi pensando nisso que eu decidi mudar a minha maneira tendenciosa de ouvir música. E ao me libertar dos meus paradigmas musicais, encontrei uma banda "para adolescentes" que me agradava: Evanescence. Bastaram o primeiro hit nas rádios e uma ouvida mais detalhada numa megastore para que eu comprasse o "Fallen", o tão badalado CD da banda. Meses depois, me peguei elogiando uma música do Hoobastank, coisa que escandalizou outro amigo tradicionalista da minha geração. Semanas atrás, adquiri mais um lançamento badalado: o CD de estréia do Audioslave. E no último feriado, ouvi uma música do LS Jack no rádio e - pasmem - eu gostei!

E quanto aos ídolos da minha geração? Van Halen, Whitesnake, Deep Purple e afins? Continuam lá, no pedestal dos imortais, no panteão dos gloriosos que há no meu coração. Mas ainda há espaço para o novo, para as bandas que eu vou simplesmente gostar sem o compromisso de ser fã, e com isso me identificar com as novas gerações.

Mente aberta para o novo: eis o segredo da juventude eterna.

quinta-feira, setembro 02, 2004

Quando a arte marcial e a vida se confundem

Um dos benefícios mais notórios das artes de guerra é a defesa pessoal. Em quase três anos de academia, foi inevitável encontrar pessoas que procuraram o Karate com o intuito de se defender. E lá nós aprendemos a importância de ser resistente, saber esquivar, saber defender, ser forte. Afrouxe sua guarda por um segundo e você verá o que um chute mais ágil é capaz de fazer no seu rosto. Seja forte e habilidoso, e em breve você se sentirá mais seguro.

De acordo com as palavras do próprio Shihan Isobe, "Saber defender-se é o primeiro passo para defender o outro. Saiba defender o outro e você poderá defender sua pátria, seus ideais e a justiça. Assim, você se tornará capaz de servir ao próximo".

Não foram poucas as vezes em que eu mantive a guarda alta nos relacionamentos pessoais. Recentemente, eu relutei em falar sobre os meus sentimentos pela enémisa vez com a mesma pessoa. E mais uma vez ela me disse: "Já reparou o quanto você se defende? Você nunca fala o que está sentindo, pelo menos não antes que eu faça a mesma coisa".

É verdade, eu me defendo demais nos meus relacionamentos. A guarda permanece fechada mesmo diante de alguém que eu goste. É verdade, eu percebi que fui mais um dos que buscou o Karate, entre outras coisas, para se defender. Mas se a agressão física não é exatamente um problema para mim, o que há em mim que exija tanta defesa?

Do que você se defende, aprendiz de samurai ?

quarta-feira, setembro 01, 2004

Tudo estava pronto para a cerimônia. Em algum lugar, ouvia-se o delicado som de uma caixinha de jóias, dedilhando suavemente uma canção nupcial. As daminhas de honra olhavam imóveis, acanhadas, exibindo seus caixinhos dourados presos em fitinhas azuis. Dispostos pelos bancos de uma linda catedral, os convidados aguardavam impacientes: tias choronas, avós usando chapéus espalhafatosos, primos sonolentos, crianças inquietas. O tradicional tapete vermelho cobria o corredor central, que vinha ladeado por mantos tão alvos quanto a neve, presos aos bancos por buquês de gardênias. Ao redor de um imponente altar, padre, padrinhos e familiares olhavam fixo para a entrada da igreja, quando não faziam uma de suas frequentes consultas ao relógio. Famílias orgulhosas, padrões de moral cumpridos, sociedade satisfeita.

Eis que os foles do órgão da catedral ressoam, em harmonia com os sinos no alto das torres. As portas se abrem e surge a noiva. Todos se levantam e se voltam para vê-la. Não era bonita nem feia, nem simpática nem arrogante, nem radiante nem acanhada. Era alguém que, no máximo, me causava simpatia. Tudo estava bem até que uma casual olhada para os meus pés me fizessem perceber que eu era o noivo!

Um objeto de porcelana foi ao chão com violência, uma forte lufada de vento soprou e o solavanco de um golpe percorreu o meu corpo. Meus olhos se abriram revelando a escuridão do quarto.

Havia sido apenas um pesadelo...

Em um outro momento, as manoplas de uma Harley-Davidson vibravam indomáveis em minhas mãos, enquanto os faróis da moto cortavam a escuridão da noite. O motor em alta rotação, rugindo mais alto que os trovões no horizonte, fazia os olhos-de-gato na estrada passarem zunindo sob os meus pés. Ocupando a garupa e agarrada à minha cintura, ali estava ela, se protegendo do vento gelado por trás de minhas costas. Havíamos sido expulsos do paraíso, rejeitados e abandonados por todos com quem poderíamos contar. Não havia mais lugar para nós entre as regras e convenções da sociedade que ficava para trás. Tudo estava perdido, tudo estava acabado, mas ela tinha um olhar capaz de me fazer esquecer qualquer problema, e um beijo capaz de me curar de todo desespero. Um beijo que me dava forças para fazer o impossível. Mais alguns momentos e eu estaria em algum lugar, sem mais nada do que um dia havia sido o meu mundo, mas com ela em meus braços. Para sempre.

Eu havia voltado a sonhar...

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